Espécie símbolo de SP, mico-leão-preto ganha censo inédito no centro-oeste paulista após 42 anos de pesquisas no Pontal

Censo inédito mapeia população de mico-leão-preto no centro-oeste de SP A história de conservação do mico-leão-preto, espécie símbolo de São Paulo, q...

Espécie símbolo de SP, mico-leão-preto ganha censo inédito no centro-oeste paulista após 42 anos de pesquisas no Pontal
Espécie símbolo de SP, mico-leão-preto ganha censo inédito no centro-oeste paulista após 42 anos de pesquisas no Pontal (Foto: Reprodução)

Censo inédito mapeia população de mico-leão-preto no centro-oeste de SP A história de conservação do mico-leão-preto, espécie símbolo de São Paulo, que por décadas parecia concentrada no Pontal do Paranapanema, ganha um novo capítulo este mês com um censo inédito no centro-oeste paulista. Equipes do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) começaram um amplo levantamento em fragmentos de Mata Atlântica espalhados entre as regiões de Lençóis Paulista, Bauru e Marília para descobrir quantos grupos restam do pequeno primata, ameaçado de extinção. 📲 Participe do canal do g1 Bauru e Marília no WhatsApp A pesquisa, com apoio da iniciativa privada, deve definir as próximas décadas da conservação da espécie na região. Mico-leão-preto, espécie ameaçada de extinção que só existe no Estado de São Paulo: censo inédito no centro-oeste busca mapear grupos do primata pela região João Vitor Medeiros Teixeira/IPÊ O mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus) é um dos primatas mais raros do planeta. Existe apenas no Estado de São Paulo, exclusivamente na faixa localizada entre os rios Tietê e Paranapanema. Foi na região do Pontal, em 1984, que pesquisadores iniciaram um dos programas de conservação mais duradouros do Brasil, responsável por ajudar a retirar a espécie da condição de praticamente. Hoje a espécie é protegida no Parque Estadual do Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio, onde mais de mil indvíduos estão abrigados. De acordo com a pesquisadora Gabriela Rezende, coordenadora do Programa de Conservação do Mico-Leão-Preto do IPÊ, o animal perdeu praticamente toda a floresta onde vivia, ao longo do século passado. Hoje, restam pequenos fragmentos separados por cidades, rodovias, lavouras e pastagens. Ela destaca, ao g1, que a fragmentação é a maior ameaça, por conta do isolamento e declínio das populações restantes e a consequente degradação do habitat. É justamente nesses "retalhos" de floresta que os pesquisadores pretendem entrar. "Quando pensamos em conservar a espécie, precisamos olhar para todas as regiões onde ela ainda ocorre. Não basta proteger apenas o Pontal do Paranapanema. Existem outras populações igualmente importantes para garantir a sobrevivência do mico-leão-preto", explica Gabriela Rezende, ao g1. Segundo a especialista, ampliar o olhar para o centro-oeste paulista representa uma mudança estratégica. "O objetivo é entender a conservação da espécie como um todo. Existem ameaças diferentes em cada região, populações distintas geneticamente e desafios específicos. Precisamos conhecer essa realidade antes de definir quais ações serão necessárias", diz a pesquisadora. Gabriela Rezende, coordenadora do programa de conservação do mico-leão-preto do Instituto IPÊ: diagóstico sobre população do primata se estende agora ao centro-oeste paulista IPÊ/Reprodução Investigação científica em escala regional A pesquisa em municípios do centro-oeste paulista, desenvolvida em parceria com a Bracell, começou neste mês e deve durar pelo menos cinco anos. A primeira etapa funciona como um censo da espécie. Os pesquisadores devem percorrer áreas de Borebi (SP), Botucatu, Lençóis Paulista, São Manuel, Pratânia, Iaras, Garça, Alvinlândia e o entorno da Estação Ecológica dos Caetetus, em Gália. Ao contrário do que se pode pensar, os pesquisadores não percorrem a mata procurando simplesmente encontrar os animais. Grande parte do monitoramento é silencioso. Espalhados pela floresta, gravadores autônomos permanecem durante semanas registrando sons da mata. O objetivo é captar as vocalizações emitidas pelos micos. Ao mesmo tempo, armadilhas fotográficas (as câmeras-trap) equipadas com sensores de movimento registram automaticamente qualquer animal que passe diante das lentes. Caso um mico-leão-preto atravesse aquele trecho da floresta, sua presença fica registrada. Os pesquisadores se valem do know-how adquirido no monitoramento realizado no Pontal do Paranapanema, na região de Presidente Prudente, para a nova etapa. Segundo Gabriela, esse tipo de monitoramento remoto tornou-se uma das ferramentas mais importantes da conservação moderna. "É uma espécie muito difícil de detectar. Ela vocaliza, então conseguimos identificar sua presença pelos gravadores. Também utilizamos câmeras com sensores de movimento. São métodos pouco invasivos e extremamente eficientes para descobrir se o animal ainda está presente naquele fragmento", explica Gabriela, ao g1. Câmeras instaladas na Mata Atlântica flagram filhote de mico-leão-preto no interior de SP Acima da cabeça, sem ser visto Mesmo para pesquisadores experientes, encontrar um mico-leão-preto não é tarefa simples. Pesando cerca de 600 gramas (aproximadamente o tamanho de um esquilo), o animal vive praticamente todo o tempo nas copas das árvores. Move-se com extrema agilidade, quase sempre em silêncio. "Às vezes estamos exatamente embaixo deles e nem percebemos. Eles conseguem se deslocar muito discretamente pela copa das árvores", explica Gabriela. Os grupos costumam reunir entre dois e oito indivíduos. Sempre existe um casal reprodutor acompanhado pelos filhotes. A principal característica visual é a juba negra ao redor da cabeça. Na parte traseira do corpo, próximo à cauda, aparece uma mancha dourada-alaranjada. Entre os pesquisadores, a descrição virou uma forma bem-humorada de facilitar o reconhecimento. "É como se ele usasse uma bermudinha dourada", conta Gabriela. Câmeras instaladas na Mata Atlântica flagram grupo de mico-leão-preto no interior de SP IPÊ/Reprodução LEIA MAIS Câmeras instaladas na Mata Atlântica flagram filhote de mico-leão-preto no interior de SP: 'Indicador muito positivo', diz pesquisadora Dia do Mico-leão-preto: manejo de populações impulsiona diversidade genética da espécie no interior de SP VÍDEO: diretora de Meio Ambiente usa celular para reproduzir som e ajudar micos-leões-pretos a atravessar rodovia Símbolo de SP, pouco conhecido dos paulistas Apesar da aparência marcante, pouca gente conhece o animal. Segundo a pesquisadora, muitos paulistas identificam facilmente o mico-leão-dourado, símbolo do Rio de Janeiro, mas nunca ouviram falar do próprio mico paulista. "O mico-leão-preto é exclusivo do nosso Estado. É uma espécie símbolo de São Paulo, mas ainda muito pouco conhecida pela população", diz. Vinícius José Alves Pereira, de Bauru, coordenador da educação ambiental no programa do IPÊ, reforça a constatação ao revelar que no Pontal do Paranapanema, onde o projeto atua desde os anos 1980, é comum que qualquer pequeno primata seja chamado de mico-leão-preto. "Muitas vezes a pessoa diz que viu um mico, mas, quando começamos a fazer perguntas, percebemos que ela está descrevendo um macaco-prego. Por isso é importante ensinar as características da espécie. A informação precisa é essencial para a pesquisa", destaca Vinícius, ao g1. Por isso, além da tecnologia empregada no monitoramento, o novo projeto aposta em uma ferramenta que pode ser decisiva para localizar populações ainda desconhecidas: a memória de quem vive próximo às matas. Nas próximas etapas do trabalho, pesquisadores do IPÊ vão percorrer as propriedades rurais, conversar com agricultores, sitiantes e moradores e distribuir cartilhas para ensinar como identificar corretamente o mico-leão-preto. Pesquisador do IPÊ monitora mico-leão-preto: censo inédito no centro-oeste paulista busca mapear situação do primata na região IPÊ/Reprodução Ciência cidadã A estratégia com moradores da área rural faz parte da chamada ciência cidadã, modalidade em que a população participa da produção do conhecimento científico. "Vamos explicar quais são as características do mico-leão-preto e aplicar questionários para as pessoas", explica o educador ambiental, que integra o projeto do IPÊ desde 2019. O próprio Vinícius já avistou o mico-leão-preto em Lençóis Paulista, numa reserva particular do patrimônio natural (RPPN). “A presença deles ocorre por lá, só que a gente não tem ideia ainda de como que está a saúde dos indivíduos e qual é a composição do grupo”, conta, ao g1. Initial plugin text Etapa com apoio da iniciativa privada A nova etapa do programa conta com apoio da Bracell, empresa do setor florestal que mantém operações na região. Segundo a analista de sustentabilidade Gabriela Dolenc, a parceria busca integrar produção florestal e conservação da biodiversidade em escala de paisagem. O projeto está alinhado à Agenda 2030, que reúne metas voltadas à conservação ambiental, pesquisa científica e monitoramento de espécies ameaçadas. Entre elas, estão o apoio à conservação de áreas de vegetação nativa, pesquisas sobre biodiversidade e ampliação do monitoramento de habitats naturais. Na prática, o diagnóstico realizado pelo IPÊ deverá indicar quais áreas apresentam maior potencial para ações de conectividade ecológica. Ainda não existe uma definição sobre onde poderão ser implantados corredores florestais. A decisão dependerá dos resultados obtidos durante o levantamento iniciado neste ano. Veja mais notícias da região no g1 Bauru e Marília VÍDEOS: assista às reportagens da região

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